Trabalho de Literatura (1)
Já vimos, eu, esposa e filha (agora com dezoito anos) toda a filmografia infantil clássica: Pinóquio, Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho, A Bela Adormecida... Vimos e gostamos, marcou-nos, achamos válida a experiência. Então, mesmo se agora lermos as versões originais dessas histórias, plenas de significados profundos, não desprezaremos os belos desenhos assistidos e nem os acharemos "versões enfeitadas e simplificadas" dos livros.
Logo, discordamos do autor quanto ao valor maior que atribui à Literatura em relação ao Cinema. Julgamos corretas as adaptações feitas dos livros. Afinal, outra é a linguagem artística, outro o foco narrativo.
Por exemplo: a comportadíssima Alice do desenho animado difere da do livro, que se irrita e externa explicitamente essa irritação. Outro exemplo: Pinóquio.
E, na esfera adulta, temos "Ben-Hur" (o livro), do norte-americano Lew Wallace, e "Ben-Hur – Uma História dos Tempos de Cristo" (o filme), do inglês David Lean. E, aportando ao Brasil, contemplamos "Grande Sertão: Veredas" (o romance), de João Guimarães Rosa, e, com a mesma ternura épica, a minissérie homônima da Rede Globo...
Tanto nos contos de fadas quanto em versões de obras madu-ras, sobrepaira a panacéia da catarse, iluminando nossos medos, fantasias, sonhos, angústias, mitos e complexos, resgatando nossos espíritos do Abismo.
Damos razão à Profª Drª Georgina Martins, quando reclama da predominância da expressão 'contos de fadas' para designar a Literatura Infantil. E transcrevemos, como reforço, um tópico do livro de Bruno:
"Na maioria das culturas, não existe uma linha nítida separando o mito do conto popular ou de fadas; todos eles formam a literatura das sociedades pré-alfabetizadas. É uma pena que tanto a denominação inglesa quanto a francesa para essas histórias enfatizem o papel das fadas, uma vez que na maioria delas não aparece nenhuma fada.” (p. 36)
Realmente, a denominação 'contos de fadas' se mostra insufi-ciente, inadequada, se comparada a 'contos maravilhosos', de a-brangência total.
Concluindo, consideramos importante que se leia histórias para os alfabetizandos e se coloque livros nas mãos dos alfabetizados. Sem sermões ou pedantismos didáticos. Proporcionem-lhes fadas, bruxas, madrastas, fadrastas... A leitura pela leitura, apenas. O resto pertence à Vida, que operará os costumeiros milagres.
Cabo Frio, 27 de março de 2008.
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(1) "A Psicanálise dos Contos de Fadas", de Bruno Bettelheim. Trad. Arlene Caetano. 438 p., 21ª ed. Editora Paz e Terra, SP, 2007.
Comentamos despretenciosamente a respeito da folhagem, flores e frutos que compõem a Árvore da Literatura, sem qualquer compromisso ou pose acadêmicos. Sugestões? Sempre bem-vindas...
terça-feira, 1 de julho de 2008
Resenha de "O Menino Grapiúna", de Jorge Amado
Ilustrações de Floriano Teixeira. 129 p., 24ª ed. Ed. Record, RJ, 2006.
Memórias autobiográficas romanceadas, centradas na infância de JA. Ele elenca figuras, temas e cenários que farão parte de sua fugura ficção: prostitutas, vagabundos, mestres de saveiro, feirantes, capoeiristas, macumbeiros, aventureiros, jagunços, coronéis...
Permitimo-nos usar dois lugares-comuns para expressar o teor do livro: 'linguagem coloquial' e 'leve tom de nostalgia', derramando simpatia e ternura por todos, especialmente os humildes. Recomendamo-lo para a pré-adolescência em diante.
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Sobre "Grapiúna": "Bras. (BA): Alcunha que os sertanejos dão aos moradores da capital." (Dic. Aurélio)
Memórias autobiográficas romanceadas, centradas na infância de JA. Ele elenca figuras, temas e cenários que farão parte de sua fugura ficção: prostitutas, vagabundos, mestres de saveiro, feirantes, capoeiristas, macumbeiros, aventureiros, jagunços, coronéis...
Permitimo-nos usar dois lugares-comuns para expressar o teor do livro: 'linguagem coloquial' e 'leve tom de nostalgia', derramando simpatia e ternura por todos, especialmente os humildes. Recomendamo-lo para a pré-adolescência em diante.
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Sobre "Grapiúna": "Bras. (BA): Alcunha que os sertanejos dão aos moradores da capital." (Dic. Aurélio)
Os Contos de Fadas
Trabalho por mim apresentado no Curso de Pós-Graduação em Literatura Infanto-Juvenil (Módulo 2), em 16/05/2008. (1)
Índice
1 - A palavra escrita X as ilustrações
2 - Missão da Literatura
3 – Escritores infanto-juvenis da atualidade
4 – Filme: "Príncipes e Princesas" (teatro de sombras)
5 - Filme: "O Labirinto do Fauno"
6 – Funções do maravilhoso na Literatura
7 - Questões históricas dos contos de fadas
8 - Origem dos contos de fadas
9 – Alguns autores infantis clássicos
10 – Análise de alguns contos
11 – “O Velho do Saco" (origem da lenda)
12 – Sigmund Freud --- até aqui?!
13 - Fontes de Consulta
1 - A palavra escrita versus as ilustrações
Há livros que se sustentam, que transmitem a mágica verbal simplesmente com o texto literário, sendo as figuras (ilustrações) apenas complementos que a adornam. Quando todavia se invertem esses papéis, as ilustrações invadem o espaço do livro, em demérito da palavra escrita. O ideal, então, é que as ilustrações se mantenham em segundo plano, já que o livro infantil cuida essencialmente da mensagem escrita.
A relação que temos com a literatura infanto-juvenil marca o nosso possível lugar na história de vida das crianças – desde que façamos corretas interpretações dos fenômenos correlatos.
2 - Missão da Literatura
"Um livro é clássico quando nunca termina de dizer o que tem a dizer.
Talvez por isso os verdadeiros clássicos são sempre modernos." (Georgina Martins)
A literatura não fala diretamente da dor alheia: emprega sim, com sabedoria e arte, as figuras de linguagem (metáforas, metonímias, sinédoques, prosopopéias...). Esses recursos imagísticos farão com que nós, de algum momento em diante, nos achemos ali como seres humanos, com toda a carga de dignidade e estupor que nos forma e embala.
Logo, eis o grande mérito da Literatura: colocar o homem, artisticamente nu, diante da Eternidade.
3 – Escritores infanto-juvenis da atualidade
A literatura da década de 70 contribuiu para facilitar o discurso, a comunicação artística entre os brasileiros. Citaríamos Sylvia Orthoff, Ruth Rocha e Ziraldo como meras referências, posto que, mesmo sem notar ou querer, o leitor-criança ainda não possui um domínio completo da língua. Ressaltamos, no entanto, que nem por isso (seu parco, nascente vocabulário) esse leitores-mirins compreendem e interagem menos que os adultos as situações e questões perante eles colocadas --- dando-lhes sempre uma resposta consistente, válida, surpreendente.
E por que receamos dar "nota dez" a qualquer escritor iniciante? Porque ainda o encaramos com reserva, pois via de regra ele facilita demais as coisas (literárias) para os pequenos leitores --- o que não é bom, pois os livros infantis têm que elevar a imaginação, a criatividade, a interação, os conceitos imprescindíveis para a sua formação e crescimento social...
E esse literato de primeira viagem, que ignora bastantes coisas, acaba realizando uma obra no vazio do Bem e do Belo: escrevinha uma literatura vagabunda, intragável, vulgar.
4 – Filme: "Príncipes e Princesas" (teatro de sombras)
Após a projeção, a professora dividiu a turma em grupos e pediu que lêssemos contos de fadas, analisássemos e fizéssemos uma apresentação.
Na aula seguinte, cada aluno levou um ou mais exemplares de adaptações de contos de fadas --- ou mesmo de outros gêneros --- e fizemos uma crítica comum, um balanço geral, um debate democrático e profícuo.
Livros que levei: “A Metamorfose” (Franz Kafka – quadrinhos), “Ali Babá e os quarentas ladrões” (por Antoine Galland), “As aventuras de Pinóquio” (Carlo Collodi), “O corcunda de Notre-Dame” (Victor Hugo), “O Flautista Mágico”, “O Último Moicano” (James F. Cooper) e “Os Miseráveis” (Victor Hugo).5 - Filme: "O Labirinto do Fauno"
Mescla a mais crua realidade da ditadura do Generalíssimo Francisco Franco, na Espanha das primeiras décadas do século XX, com a magia etérea de uma história paralela transcendente, onde uma menina é a heroína. A sua mãe freqüentemente lhe dizia que ela tinha que crescer (entenda-se: para de sonhar acordada e ver magia em tudo).
O filme contém, em conseqüência, inúmeras referências simbólicas ao crescimento individual, espiritual, cruzadas com a estabilidade cósmica.
Psicanaliticamente, surge o escapismo, a fuga das coisas concretas: a garota não queria conviver com o padrasto antipático e arrogante, e usa o recurso mental do conto de fadas para se abstrair --- criando outra realidade, um mundo paralelo.
O livro em branco onde ela vai "escrevendo" sua história, bastante significativo e misterioso, conduz ao restabelecimento da fantasia e amplia suas divagações oníricas.
No final, assiste-se à dor maior do padrasto, o cruel capitão: o filho recém-nascido, irmão da garota, não saberá quem é (ou foi) ele, sabença essa que daria continuidade à sua geração, sua história de vida. Essa angústia ele a experimentou no seu último minuto de vida, quando entregou a criança à empregada e disse, ainda em tom autoritário: "Tome meu filho. Cuide dele, e, quando crescer, diga-lhe com orgulho quem foi seu pai!"
A revolucionária governanta, protegida e apoiada por vários guerrilheiros do povo, responde: "Não, o menino jamais saberá quem foi seu pai! Canalha!"
Em seguida, um homem o mata com um único tiro. Sério momento de catarse para os espectadores, esse de justo castigo pelas malvadezas por ele cometidas.
O filme, pleno de simbolismo, faz referências a várias histórias, que atravessam a versão principal. E não perde a verossimilhança, alternando-se entre o real e o imaginário, na dose exata de devaneio artístico.
6 – Funções do maravilhoso na Literatura
a) Fuga da realidade:
- "As desventuras de Cândida Erênvira e sua avó desalmada", de Gabriel G. Márquez;
- "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez;
- "Os Cavalinhos de Platiplanto", de José J. Veiga;
- "O Ex-Mágico" e "O Pirotécnico Zacarias", de Murilo Rubião...
b) Crítica social:
Determinadas coisas reais, cujo aspecto insólito nos choca e pasma, parecem ficção, embora se trate de pura realidade --- coisas inacreditáveis, impensáveis. Essas coisas reais, virando literatura, fazem emergir em conseqüência essa outra função da literatura. Exemplo: o filme "Edward Mãos de Tesoura", em que Edward mostra a hipocrisia da sociedade americana. Essa sociedade desejava apenas se apropriar daquilo que não é real – a exemplo do menino Aladim, que só queria uma mesa farta.
Através da Arte (Pintura, Escultura, Literatura...), procuramos nos apropriar daquilo que não temos na realidade: é o caso de uma moça pobre que se casa com um príncipe virtuoso e bonito, por exemplo --- e que nos enche da fantasia peculiar à história sonhada.
Enfim: os bons autores, quando escrevem, além de nos arrebatarem da realidade, fazem-nos conhecer essa mesma realidade --- metaforicamente, artisticamente, o que nos possibilita alçar-nos a elevados pensamentos e sentimentos, que nos aprofundam e fazem ver inusitados mundos no Mundo.
7 - Questões históricas dos contos de fadas
O príncipe, que aparece sempre no final dos contos de fadas, assemelha-nos uma figura lendária, inatingível como os nossos ideais --- porém tão presente como eles.
Fazendo uma leitura e análise desses contos, percebemos que as narrativas se apresentam mágicas quando (ou porque) saem da realidade.
Tais narrativas possuem um ritmo e um caráter temporal próprios. Não devemos tentar modernizá-las muito, pois acabaremos desvirtuando essa atemporalidade tão essencial a elas. Acrescentar temas, coisas e objetos da atualidade (como celulares, pilhas, televisão, computador etc.), a esses contos destrói o seu milenar encanto, cuja magia prescinde de apetrechos tão modernos, virtuais marcadores de tempo.
No caso de João e Maria, a dolorosa passagem para a adolescência foi simbolizada pela escuridão e perigos da floresta. Sua história comporta uma metáfora invertida da fome – uma casa cheia de doces (que paraíso!), que os leva a se apropriar do irreal, numa releitura moderna. (Naquele tempo, os pais abandonavam mesmo as crianças na floresta, devido à falta de recursos.)
Essas histórias não foram inventadas para crianças, mas para amenizar a dureza da vida das classes pobres, na Idade Média. O maravilhoso possui, então, um caráter social histórico.
O espaço literário medieval abarcava as florestas, e as histórias se estruturam naquele espaço e naquele tempo.
Para a Igreja o que interessava eram os milagres, e não o aspecto maravilhoso das histórias. Tudo o que acontecia nas esferas do bem e do mal era de competência de Deus --- nunca mérito ou vontade dos homens. E pelo conceito medieval, sendo o homem moldado à imagem e semelhança de Deus, como poderiam existir bruxas?
Na Idade Média, mormente nos séculos IV e XV --- séculos cristãos, monoteístas ---, ocorreram as grandes navegações, resultando por exemplo no descobrimento do Brasil.
Há um conjunto de tradições, de cenários de castelos, realeza etc. na Europa, que nós no Brasil não possuímos, pois somamos apenas 500 anos, e não dois mil anos ou mais, como eles. 8 - Origem dos contos de fadas
Podem ter vindo dos padres, intelectuais que dominavam a escrita; ou de pessoas ou famílias iletradas que trabalhavam de dia e, à noite, se reuniam e contavam histórias diante dos fogos de seus lares.
Há ainda narrativas plenas de referências gregas e de outras culturas.
Logo, não dá para precisar de onde surgiram e que classes as recolheram.
9 – Alguns autores infantis clássicos
a) Charles Perrault:
Muitas histórias eram relatadas oralmente, no século XVII. Perrault, que na França vivia em palácios, recolheu várias delas. Um conjunto famoso: os "Contos da mamãe gansa". Narrados para meninas e damas da Corte como entretenimento, continham também uma moral. Depois, ele resolveu escrevê-las.
Contando tais histórias, pretendia ele que as mulheres bonitas se tornassem também (ou mais) submissas.
b) Irmãos Grimm:
No século XIX, na Alemanha, os estudiosos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm puseram-se a recolher as histórias do povo. Publicaram, em 1812, os "Contos da Infância e do Lar", pois achavam que tais relatos não se podiam perder, reunindo as várias narrativas semelhantes e refundindo-se numa só versão.
c) Hans Christian Andersen:
No século XIX, na Dinamarca, ele escreveu "A Pequena Sereia", "O Patinho Feio" e outras histórias comoventes. Tanto as compilava a partir do folclore local, como as inventava.
10 – Análise de alguns contos
a) Branca de Neve:
O amadurecimento sexual (passagem de menina a moça) se acha simbolizado pela sua ida para a floresta, onde se "perde" (na verdade, se "acha"), ao se deparar com outro estágio da vida, descobrindo sua libido, seu lado erótico.
Algumas características desta história: ela reza sempre, antes de dormir; seu pai, fraco, imbele, faz todas as vontades da madrasta; os sete anões simbolizam os trabalhadores da terra.
A morte temporária de Branca de Neve é abordada no livro de Vladimir Propp, em uma interpretação bastante original.
b) Cinderela:
Na verdade, sua história aponta para o fim do ciclo dos contos maravilhosos.
Alguns critérios para a heroína circular na Corte: apresentar-se sempre bela, bondosa e bem vestida, por exemplo.
Naquele tempo, acreditava-se que plantar uma árvore num túmulo fortalecia os corpos dos vivos. E que permanecer perto do fogo era um privilégio para o pagão. No cristianismo, o fogo se relaciona ao inferno; ela vive perto do fogo e está sempre suja.
Existem mais de trezentas versões de "Cinderela".
c) Sete palavrinhas sobre as madrastas...
Sua figura se vinculava à infância, pois as mulheres morriam cedo, de parto, e os homens se casavam de novo. Daí que proliferavam as madrastas --- e as tristes lendas a seu respeito... Torna-se complicado levar para um novo casamento os filhos do anterior. Na miséria, torna-se pior ainda: cada um quer proteger seu filho. Cinderela vivencia isto: a madrasta procura desonerar, desobrigar e privilegiar as suas filhas legítimas, jogando o peso das responsabilidades e do trabalho de casa sobre ela.
(Na Alemanha, há a versão de um casal que viu uma menina abandonada e a pegou para criar; a menina se apaixona pelo homem e a madrasta tenta matá-la.)
11 – “O Velho do Saco" (origem da lenda)
Em Portugal, a Igreja criou a Roda de Expostos, que consistia no seguinte: colocavam as crianças numa roda giratória, apertavam a campainha e ela girava para dentro do pátio, sem que as pessoas se vissem. Do lado de dentro, pessoas piedosas pegavam as crianças assim abandonadas, que eram posteriormente oferecidas para adoção.
(Exemplo ainda visível em Cabo Frio: o prédio da Charitas, (2) que guarda vestígios dessa prática caridosa).
A Igreja inventou também uma pia batismal, para afastar do pecado esses anjos pagãos, através de uma unção (uma bênção).
12 – Sigmund Freud --- até aqui?!
Sim. Para ele, há três medos inerentes ao ser humano: morrer, relacionar-se e as forças da natureza. O maior medo: relacionar-se, uma vez que ele se acha um eterno infeliz, um permanente inadaptado para viver na Civilização.
13 - Fontes de Consulta
1 - "A mulher que matou os peixes", de Clarice Lispector. Il. FlorOpazo. 32 p. Ed. Rocco, RJ, 1999.
2 - "A Psicanálise dos Contos de Fadas", de Bruno Bettelheim. 440 p., 21ª edição, Paz e Terra, RJ, 2007.
3 - "Ali Babá e os quarenta ladrões", por Antoine Galland. Adap. Luc Lefort. Trad. Ruth Salles. Il. Emre Orhun. 48 p., 1ª ed. Ática, SP, 2002.
4 - "As aventuras de Pinóquio", de Carlo Collodi. Trad. Marina Colasanti. Apres. Tatiana Belinky. Il. Odilon Moraes. 64 p., 1ª ed. Companhia das Letrinhas, SP, 2002.
5 - "Aladim e a lâmpada maravilhosa". Adap. Eunice Braido. Il. Edil A.S. Araújo. 16 p. Ed. FTD. 6 - "João e Maria". Adap. Alfredo C. Machado. Il. T. Izawa e S. Hijikata. 16 p. Ed. Record.
7 - "Literatura Infantil Brasileira", de Marisa Lajolo e Regina Zilberman. 190 p., 6ª edição, Ática, SP, 2006.
8 - "O Corcunda de Notre-Dame", de Victor Marie Hugo. Adap. Telma Guimarães. Il. Denise Nascimento. 48 p., 1ª ed. Scipione, SP, 2003.
9 - "O grande massacre dos gatos e outros episódios da história francesa", de Robert Dartson.
10 - "O Flautista Mágico". Sem ind. autor e adap. Il. Lima. Ed. Globo, SP, 2000.
11 - "O menino e o arco-íris", de José Ribamar Ferreira Gullar. Il. Marcelo Apis. 102 p. Ed. Ática, SP, 2001.
12 - "O que é Literatura Infantil", de Lígia Cadermatori. 90 p. 7ª edição, Brasiliense, SP, 2006.
13 – "O Texto na Sala de Aula --- Leitura e Produção", de João W. Geraldi (org.). 4ª edição, 136 p., Ática, SP, 2006.
14 - “O Último Moicano”, de James F. Cooper. Adap. Luiz Antonio Aguiar. Il. Eduardo C. Pereira. 48 p., 1ª ed. Cia. Melhoramentos, SP, 1997.
15 - "Seis propostas para o novo Milênio", de Italo Calvino. Trad. Ivo Barroso. 141 p., 5ª ed. Companhia das Letras, RJ, 1990.
16 - "Teoria da Literatura: uma Introdução", de Terry Eagleton. 400 p., 6ª edição, Martins Fontes, SP, 2006.
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(1) Modificado onze vezes desde então, consumindo cerca de onze horas, entre computador, ônibus, mesa de trabalho, leituras e pesquisas...
(2) Pronuncia-se 'cáritas'.
Índice
1 - A palavra escrita X as ilustrações
2 - Missão da Literatura
3 – Escritores infanto-juvenis da atualidade
4 – Filme: "Príncipes e Princesas" (teatro de sombras)
5 - Filme: "O Labirinto do Fauno"
6 – Funções do maravilhoso na Literatura
7 - Questões históricas dos contos de fadas
8 - Origem dos contos de fadas
9 – Alguns autores infantis clássicos
10 – Análise de alguns contos
11 – “O Velho do Saco" (origem da lenda)
12 – Sigmund Freud --- até aqui?!
13 - Fontes de Consulta
1 - A palavra escrita versus as ilustrações
Há livros que se sustentam, que transmitem a mágica verbal simplesmente com o texto literário, sendo as figuras (ilustrações) apenas complementos que a adornam. Quando todavia se invertem esses papéis, as ilustrações invadem o espaço do livro, em demérito da palavra escrita. O ideal, então, é que as ilustrações se mantenham em segundo plano, já que o livro infantil cuida essencialmente da mensagem escrita.
A relação que temos com a literatura infanto-juvenil marca o nosso possível lugar na história de vida das crianças – desde que façamos corretas interpretações dos fenômenos correlatos.
2 - Missão da Literatura
"Um livro é clássico quando nunca termina de dizer o que tem a dizer.
Talvez por isso os verdadeiros clássicos são sempre modernos." (Georgina Martins)
A literatura não fala diretamente da dor alheia: emprega sim, com sabedoria e arte, as figuras de linguagem (metáforas, metonímias, sinédoques, prosopopéias...). Esses recursos imagísticos farão com que nós, de algum momento em diante, nos achemos ali como seres humanos, com toda a carga de dignidade e estupor que nos forma e embala.
Logo, eis o grande mérito da Literatura: colocar o homem, artisticamente nu, diante da Eternidade.
3 – Escritores infanto-juvenis da atualidade
A literatura da década de 70 contribuiu para facilitar o discurso, a comunicação artística entre os brasileiros. Citaríamos Sylvia Orthoff, Ruth Rocha e Ziraldo como meras referências, posto que, mesmo sem notar ou querer, o leitor-criança ainda não possui um domínio completo da língua. Ressaltamos, no entanto, que nem por isso (seu parco, nascente vocabulário) esse leitores-mirins compreendem e interagem menos que os adultos as situações e questões perante eles colocadas --- dando-lhes sempre uma resposta consistente, válida, surpreendente.
E por que receamos dar "nota dez" a qualquer escritor iniciante? Porque ainda o encaramos com reserva, pois via de regra ele facilita demais as coisas (literárias) para os pequenos leitores --- o que não é bom, pois os livros infantis têm que elevar a imaginação, a criatividade, a interação, os conceitos imprescindíveis para a sua formação e crescimento social...
E esse literato de primeira viagem, que ignora bastantes coisas, acaba realizando uma obra no vazio do Bem e do Belo: escrevinha uma literatura vagabunda, intragável, vulgar.
4 – Filme: "Príncipes e Princesas" (teatro de sombras)
Após a projeção, a professora dividiu a turma em grupos e pediu que lêssemos contos de fadas, analisássemos e fizéssemos uma apresentação.
Na aula seguinte, cada aluno levou um ou mais exemplares de adaptações de contos de fadas --- ou mesmo de outros gêneros --- e fizemos uma crítica comum, um balanço geral, um debate democrático e profícuo.
Livros que levei: “A Metamorfose” (Franz Kafka – quadrinhos), “Ali Babá e os quarentas ladrões” (por Antoine Galland), “As aventuras de Pinóquio” (Carlo Collodi), “O corcunda de Notre-Dame” (Victor Hugo), “O Flautista Mágico”, “O Último Moicano” (James F. Cooper) e “Os Miseráveis” (Victor Hugo).5 - Filme: "O Labirinto do Fauno"
Mescla a mais crua realidade da ditadura do Generalíssimo Francisco Franco, na Espanha das primeiras décadas do século XX, com a magia etérea de uma história paralela transcendente, onde uma menina é a heroína. A sua mãe freqüentemente lhe dizia que ela tinha que crescer (entenda-se: para de sonhar acordada e ver magia em tudo).
O filme contém, em conseqüência, inúmeras referências simbólicas ao crescimento individual, espiritual, cruzadas com a estabilidade cósmica.
Psicanaliticamente, surge o escapismo, a fuga das coisas concretas: a garota não queria conviver com o padrasto antipático e arrogante, e usa o recurso mental do conto de fadas para se abstrair --- criando outra realidade, um mundo paralelo.
O livro em branco onde ela vai "escrevendo" sua história, bastante significativo e misterioso, conduz ao restabelecimento da fantasia e amplia suas divagações oníricas.
No final, assiste-se à dor maior do padrasto, o cruel capitão: o filho recém-nascido, irmão da garota, não saberá quem é (ou foi) ele, sabença essa que daria continuidade à sua geração, sua história de vida. Essa angústia ele a experimentou no seu último minuto de vida, quando entregou a criança à empregada e disse, ainda em tom autoritário: "Tome meu filho. Cuide dele, e, quando crescer, diga-lhe com orgulho quem foi seu pai!"
A revolucionária governanta, protegida e apoiada por vários guerrilheiros do povo, responde: "Não, o menino jamais saberá quem foi seu pai! Canalha!"
Em seguida, um homem o mata com um único tiro. Sério momento de catarse para os espectadores, esse de justo castigo pelas malvadezas por ele cometidas.
O filme, pleno de simbolismo, faz referências a várias histórias, que atravessam a versão principal. E não perde a verossimilhança, alternando-se entre o real e o imaginário, na dose exata de devaneio artístico.
6 – Funções do maravilhoso na Literatura
a) Fuga da realidade:
- "As desventuras de Cândida Erênvira e sua avó desalmada", de Gabriel G. Márquez;
- "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez;
- "Os Cavalinhos de Platiplanto", de José J. Veiga;
- "O Ex-Mágico" e "O Pirotécnico Zacarias", de Murilo Rubião...
b) Crítica social:
Determinadas coisas reais, cujo aspecto insólito nos choca e pasma, parecem ficção, embora se trate de pura realidade --- coisas inacreditáveis, impensáveis. Essas coisas reais, virando literatura, fazem emergir em conseqüência essa outra função da literatura. Exemplo: o filme "Edward Mãos de Tesoura", em que Edward mostra a hipocrisia da sociedade americana. Essa sociedade desejava apenas se apropriar daquilo que não é real – a exemplo do menino Aladim, que só queria uma mesa farta.
Através da Arte (Pintura, Escultura, Literatura...), procuramos nos apropriar daquilo que não temos na realidade: é o caso de uma moça pobre que se casa com um príncipe virtuoso e bonito, por exemplo --- e que nos enche da fantasia peculiar à história sonhada.
Enfim: os bons autores, quando escrevem, além de nos arrebatarem da realidade, fazem-nos conhecer essa mesma realidade --- metaforicamente, artisticamente, o que nos possibilita alçar-nos a elevados pensamentos e sentimentos, que nos aprofundam e fazem ver inusitados mundos no Mundo.
7 - Questões históricas dos contos de fadas
O príncipe, que aparece sempre no final dos contos de fadas, assemelha-nos uma figura lendária, inatingível como os nossos ideais --- porém tão presente como eles.
Fazendo uma leitura e análise desses contos, percebemos que as narrativas se apresentam mágicas quando (ou porque) saem da realidade.
Tais narrativas possuem um ritmo e um caráter temporal próprios. Não devemos tentar modernizá-las muito, pois acabaremos desvirtuando essa atemporalidade tão essencial a elas. Acrescentar temas, coisas e objetos da atualidade (como celulares, pilhas, televisão, computador etc.), a esses contos destrói o seu milenar encanto, cuja magia prescinde de apetrechos tão modernos, virtuais marcadores de tempo.
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Na Idade Média, em algumas regiões, havia a crença de que, jogando-se uma virgem no rio, as terras em redor seriam fertilizadas pela decomposição natural do corpo dessa jovem. Essa crença é uma marca do sobrenatural, porque não existia ainda a Ciência, e naquele momento não circulavam ainda príncipes encantados, que apareceram nos contos bem depois. No caso de João e Maria, a dolorosa passagem para a adolescência foi simbolizada pela escuridão e perigos da floresta. Sua história comporta uma metáfora invertida da fome – uma casa cheia de doces (que paraíso!), que os leva a se apropriar do irreal, numa releitura moderna. (Naquele tempo, os pais abandonavam mesmo as crianças na floresta, devido à falta de recursos.)
Essas histórias não foram inventadas para crianças, mas para amenizar a dureza da vida das classes pobres, na Idade Média. O maravilhoso possui, então, um caráter social histórico.
O espaço literário medieval abarcava as florestas, e as histórias se estruturam naquele espaço e naquele tempo.
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O Feudalismo se dividia entre os que oravam (clero), os que governavam (reis, príncipes, nobres) e os que trabalhavam (povo). Para a Igreja o que interessava eram os milagres, e não o aspecto maravilhoso das histórias. Tudo o que acontecia nas esferas do bem e do mal era de competência de Deus --- nunca mérito ou vontade dos homens. E pelo conceito medieval, sendo o homem moldado à imagem e semelhança de Deus, como poderiam existir bruxas?
Na Idade Média, mormente nos séculos IV e XV --- séculos cristãos, monoteístas ---, ocorreram as grandes navegações, resultando por exemplo no descobrimento do Brasil.
Há um conjunto de tradições, de cenários de castelos, realeza etc. na Europa, que nós no Brasil não possuímos, pois somamos apenas 500 anos, e não dois mil anos ou mais, como eles. 8 - Origem dos contos de fadas
Podem ter vindo dos padres, intelectuais que dominavam a escrita; ou de pessoas ou famílias iletradas que trabalhavam de dia e, à noite, se reuniam e contavam histórias diante dos fogos de seus lares.
Há ainda narrativas plenas de referências gregas e de outras culturas.
Logo, não dá para precisar de onde surgiram e que classes as recolheram.
9 – Alguns autores infantis clássicos
a) Charles Perrault:
Muitas histórias eram relatadas oralmente, no século XVII. Perrault, que na França vivia em palácios, recolheu várias delas. Um conjunto famoso: os "Contos da mamãe gansa". Narrados para meninas e damas da Corte como entretenimento, continham também uma moral. Depois, ele resolveu escrevê-las.
Contando tais histórias, pretendia ele que as mulheres bonitas se tornassem também (ou mais) submissas.
b) Irmãos Grimm:
No século XIX, na Alemanha, os estudiosos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm puseram-se a recolher as histórias do povo. Publicaram, em 1812, os "Contos da Infância e do Lar", pois achavam que tais relatos não se podiam perder, reunindo as várias narrativas semelhantes e refundindo-se numa só versão.
c) Hans Christian Andersen:
No século XIX, na Dinamarca, ele escreveu "A Pequena Sereia", "O Patinho Feio" e outras histórias comoventes. Tanto as compilava a partir do folclore local, como as inventava.
10 – Análise de alguns contos
a) Branca de Neve:
O amadurecimento sexual (passagem de menina a moça) se acha simbolizado pela sua ida para a floresta, onde se "perde" (na verdade, se "acha"), ao se deparar com outro estágio da vida, descobrindo sua libido, seu lado erótico.
Algumas características desta história: ela reza sempre, antes de dormir; seu pai, fraco, imbele, faz todas as vontades da madrasta; os sete anões simbolizam os trabalhadores da terra.
A morte temporária de Branca de Neve é abordada no livro de Vladimir Propp, em uma interpretação bastante original.
b) Cinderela:
Na verdade, sua história aponta para o fim do ciclo dos contos maravilhosos.
Alguns critérios para a heroína circular na Corte: apresentar-se sempre bela, bondosa e bem vestida, por exemplo.
Naquele tempo, acreditava-se que plantar uma árvore num túmulo fortalecia os corpos dos vivos. E que permanecer perto do fogo era um privilégio para o pagão. No cristianismo, o fogo se relaciona ao inferno; ela vive perto do fogo e está sempre suja.
Existem mais de trezentas versões de "Cinderela".
c) Sete palavrinhas sobre as madrastas...
Sua figura se vinculava à infância, pois as mulheres morriam cedo, de parto, e os homens se casavam de novo. Daí que proliferavam as madrastas --- e as tristes lendas a seu respeito... Torna-se complicado levar para um novo casamento os filhos do anterior. Na miséria, torna-se pior ainda: cada um quer proteger seu filho. Cinderela vivencia isto: a madrasta procura desonerar, desobrigar e privilegiar as suas filhas legítimas, jogando o peso das responsabilidades e do trabalho de casa sobre ela.
(Na Alemanha, há a versão de um casal que viu uma menina abandonada e a pegou para criar; a menina se apaixona pelo homem e a madrasta tenta matá-la.)
11 – “O Velho do Saco" (origem da lenda)
Em Portugal, a Igreja criou a Roda de Expostos, que consistia no seguinte: colocavam as crianças numa roda giratória, apertavam a campainha e ela girava para dentro do pátio, sem que as pessoas se vissem. Do lado de dentro, pessoas piedosas pegavam as crianças assim abandonadas, que eram posteriormente oferecidas para adoção.
(Exemplo ainda visível em Cabo Frio: o prédio da Charitas, (2) que guarda vestígios dessa prática caridosa).
A Igreja inventou também uma pia batismal, para afastar do pecado esses anjos pagãos, através de uma unção (uma bênção).
12 – Sigmund Freud --- até aqui?!
Sim. Para ele, há três medos inerentes ao ser humano: morrer, relacionar-se e as forças da natureza. O maior medo: relacionar-se, uma vez que ele se acha um eterno infeliz, um permanente inadaptado para viver na Civilização.
13 - Fontes de Consulta
1 - "A mulher que matou os peixes", de Clarice Lispector. Il. FlorOpazo. 32 p. Ed. Rocco, RJ, 1999.
2 - "A Psicanálise dos Contos de Fadas", de Bruno Bettelheim. 440 p., 21ª edição, Paz e Terra, RJ, 2007.
3 - "Ali Babá e os quarenta ladrões", por Antoine Galland. Adap. Luc Lefort. Trad. Ruth Salles. Il. Emre Orhun. 48 p., 1ª ed. Ática, SP, 2002.
4 - "As aventuras de Pinóquio", de Carlo Collodi. Trad. Marina Colasanti. Apres. Tatiana Belinky. Il. Odilon Moraes. 64 p., 1ª ed. Companhia das Letrinhas, SP, 2002.
5 - "Aladim e a lâmpada maravilhosa". Adap. Eunice Braido. Il. Edil A.S. Araújo. 16 p. Ed. FTD. 6 - "João e Maria". Adap. Alfredo C. Machado. Il. T. Izawa e S. Hijikata. 16 p. Ed. Record.
7 - "Literatura Infantil Brasileira", de Marisa Lajolo e Regina Zilberman. 190 p., 6ª edição, Ática, SP, 2006.
8 - "O Corcunda de Notre-Dame", de Victor Marie Hugo. Adap. Telma Guimarães. Il. Denise Nascimento. 48 p., 1ª ed. Scipione, SP, 2003.
9 - "O grande massacre dos gatos e outros episódios da história francesa", de Robert Dartson.
10 - "O Flautista Mágico". Sem ind. autor e adap. Il. Lima. Ed. Globo, SP, 2000.
11 - "O menino e o arco-íris", de José Ribamar Ferreira Gullar. Il. Marcelo Apis. 102 p. Ed. Ática, SP, 2001.
12 - "O que é Literatura Infantil", de Lígia Cadermatori. 90 p. 7ª edição, Brasiliense, SP, 2006.
13 – "O Texto na Sala de Aula --- Leitura e Produção", de João W. Geraldi (org.). 4ª edição, 136 p., Ática, SP, 2006.
14 - “O Último Moicano”, de James F. Cooper. Adap. Luiz Antonio Aguiar. Il. Eduardo C. Pereira. 48 p., 1ª ed. Cia. Melhoramentos, SP, 1997.
15 - "Seis propostas para o novo Milênio", de Italo Calvino. Trad. Ivo Barroso. 141 p., 5ª ed. Companhia das Letras, RJ, 1990.
16 - "Teoria da Literatura: uma Introdução", de Terry Eagleton. 400 p., 6ª edição, Martins Fontes, SP, 2006.
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(1) Modificado onze vezes desde então, consumindo cerca de onze horas, entre computador, ônibus, mesa de trabalho, leituras e pesquisas...
(2) Pronuncia-se 'cáritas'.
Literatura Portuguesa Infantil
Trata-se do Módulo 4, dos Professores Fábio Coelho e Luci Ruas, em andamento.
Ela é titular de Literatura Portuguesa Infantil na UFRJ e UERJ; ele, de Teoria Literária da Ferlagos e da UVA/Cabo Frio.
Trabalho por mim apresentado no Curso de Pós-Graduação em Literatura Infanto-Juvenil (Módulo 4 - Profª Luci Ruas), em / /2008.
Índice:
1 - Panorama Histórico
2 - João de Barros
3 - Eça de Queirós
4 - Fontes de Consulta
1 - Panorama Histórico:
O Tribunal do Santo Ofício era o braço da Contra-Reforma. Denunciavam-se as pessoas por heresia e bruxaria, com imensa facilidade. Em Portugal, isso ocorria bem mais amiúde que na Espanha, por exemplo.
Expulsavam-se judeus e cientistas de Portugal: um erro fenomenal, pois os judeus eram donos do dinheiro, e os árabes, navegadores, astrônomos, estudiosos, detendo portanto o conhecimento.
A expulsão dos árabes (representando as ciências e os conhecimentos mais avançados da época) foi o que causou a queda Portugal. Devido a isto, Portugal se atrasou dois séculos, em relação à Europa, ao Mundo enfim, e jamais conseguirá recuperar esse tempo perdido.
Como prova disto, no século XIX os outros países europeus já se achavam completamente alfabetizados, e Portugal ainda não.
A imprensa só veio a existir no século XV.
A primeira biblioteca para crianças em Portugal surgiu em 1870.
A estratégia política de Martinho Lutero – separar a Igreja do Estado – permitiu que novas lideranças surgissem, enriquecendo e fazendo andar a História.
2 - João de Barros:
Escreve, em 1539, a primeira Cartilha da Língua Portuguesa (que passou a se chamar Cartinha). Assim, acaba mostrando um caminho do que se tem feito até hoje com e pelas crianças.
A Cartilha continha também o Catecismo – servia para alfabetizar e, por conveniência, ensinava os bons comportamentos, os bons costumes.
Toda essa atividade conjunta deixou uma entrada para a literatura daquele tempo, que, passando a ser cada vez mais cultivada, tornou-se logo independente da Gramática e da Religião. Na verdade, porém, essa primeira gramática servia para ensinar e doutrinar, e nem se pensava em torná-la literatura; a cartilha, no entanto, já trazia literatura.
3 - Eça de Queirós:
Através de seus romances, descortina a realidade de Portugal, com ironia e arte literária. Maneja habilmente a crítica social, através do deboche, do sarcasmo, sem excluir a simpatia pelos mais simples e humildes. Como exemplos dessa postura podemos citar: "O Primo Basílio", "Os Maias', O Crime do Padre Amaro"...
4 - Fontes de Consulta:
1 – “A infância lembrada – Antologia”, de Matilde Rosa. Lisboa: Livros Horizonte, 1986.
2 - “A Obra de Aquilino Ribeiro para crianças – imaginário e escrita”, de Rui Marques Veloso. Porto Editora, 1994.
3 – “As crianças todas as crianças” – Antologia”, de Matilde Rosa. Lisboa: Livros Horizonte, 1979.
4 - “Breve História da Literatura Para Crianças em Portugal”, de Natércia Rocha. Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1984.
5 – “Literatura Juvenil Portuguesa Contemporânea: Identidade e Alteridade”, de Francisca Blokeel. Lisboa: Editorial Caminho, 2001.
6 – “Literatura Infantil – Teoria e Prática”, de Maria Antonieta Antunes Cunha. 18ª ed. Ática, SP, 2004.
Ela é titular de Literatura Portuguesa Infantil na UFRJ e UERJ; ele, de Teoria Literária da Ferlagos e da UVA/Cabo Frio.
Trabalho por mim apresentado no Curso de Pós-Graduação em Literatura Infanto-Juvenil (Módulo 4 - Profª Luci Ruas), em / /2008.
Índice:
1 - Panorama Histórico
2 - João de Barros
3 - Eça de Queirós
4 - Fontes de Consulta
1 - Panorama Histórico:
O Tribunal do Santo Ofício era o braço da Contra-Reforma. Denunciavam-se as pessoas por heresia e bruxaria, com imensa facilidade. Em Portugal, isso ocorria bem mais amiúde que na Espanha, por exemplo.
Expulsavam-se judeus e cientistas de Portugal: um erro fenomenal, pois os judeus eram donos do dinheiro, e os árabes, navegadores, astrônomos, estudiosos, detendo portanto o conhecimento.
A expulsão dos árabes (representando as ciências e os conhecimentos mais avançados da época) foi o que causou a queda Portugal. Devido a isto, Portugal se atrasou dois séculos, em relação à Europa, ao Mundo enfim, e jamais conseguirá recuperar esse tempo perdido.
Como prova disto, no século XIX os outros países europeus já se achavam completamente alfabetizados, e Portugal ainda não.
A imprensa só veio a existir no século XV.
A primeira biblioteca para crianças em Portugal surgiu em 1870.
A estratégia política de Martinho Lutero – separar a Igreja do Estado – permitiu que novas lideranças surgissem, enriquecendo e fazendo andar a História.
2 - João de Barros:
Escreve, em 1539, a primeira Cartilha da Língua Portuguesa (que passou a se chamar Cartinha). Assim, acaba mostrando um caminho do que se tem feito até hoje com e pelas crianças.
A Cartilha continha também o Catecismo – servia para alfabetizar e, por conveniência, ensinava os bons comportamentos, os bons costumes.
Toda essa atividade conjunta deixou uma entrada para a literatura daquele tempo, que, passando a ser cada vez mais cultivada, tornou-se logo independente da Gramática e da Religião. Na verdade, porém, essa primeira gramática servia para ensinar e doutrinar, e nem se pensava em torná-la literatura; a cartilha, no entanto, já trazia literatura.
3 - Eça de Queirós:
Através de seus romances, descortina a realidade de Portugal, com ironia e arte literária. Maneja habilmente a crítica social, através do deboche, do sarcasmo, sem excluir a simpatia pelos mais simples e humildes. Como exemplos dessa postura podemos citar: "O Primo Basílio", "Os Maias', O Crime do Padre Amaro"...
4 - Fontes de Consulta:
1 – “A infância lembrada – Antologia”, de Matilde Rosa. Lisboa: Livros Horizonte, 1986.
2 - “A Obra de Aquilino Ribeiro para crianças – imaginário e escrita”, de Rui Marques Veloso. Porto Editora, 1994.
3 – “As crianças todas as crianças” – Antologia”, de Matilde Rosa. Lisboa: Livros Horizonte, 1979.
4 - “Breve História da Literatura Para Crianças em Portugal”, de Natércia Rocha. Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1984.
5 – “Literatura Juvenil Portuguesa Contemporânea: Identidade e Alteridade”, de Francisca Blokeel. Lisboa: Editorial Caminho, 2001.
6 – “Literatura Infantil – Teoria e Prática”, de Maria Antonieta Antunes Cunha. 18ª ed. Ática, SP, 2004.
Fundamentos Teóricos da Literatura
Trabalho por mim apresentado no Curso de Pós-Graduação em Literatura Infanto-Juvenil (Módulo 3), em 07/06 /2008. (1)
"Só quem escreve sabe as armadilhas
que a escritura oculta
sob as mais doces palavras."
(Luiz Henrique da Costa)
Índice:
1 - Questionamentos básicos
2 - História da Literatura
3 - Crítica Literária
4 – Qual a função da literatura?
5 - Renascimento e Barroco
6 – A Literatura Portuguesa
7 – Os Formalistas Russos
8 – A Literatura e o Cinema
9 – Tzvetan Todorov e os professores
10 – Caráter de espontaneidade ou não da Literatura
11 – Paisagem contemporânea
12 - Os marcadores da Literatura
13 - A literatura infantil contemporânea
14 - Fontes de consulta
1 - Questionamentos básicos:
O que é literatura? Como se estrutura ideologicamente? Quais as tensões que a balizam? O que suscita? O que a motiva?
As perguntas acima atravessam todas as proposições teóricas, sem nenhuma resposta definitiva. Isto porque a literatura não tem, a rigor, nenhuma finalidade prática. Aliás, a sua grande importância é não ter importância nenhuma.
Os conceitos de literatura variam de acordo com a História, com os fatos dominantes de cada época. Podemos analisar esses conceitos de acordo com os valores que se foram construindo ao longo dos tempos.
Ela não é cópia da realidade, nem modificadora dela... Ela falsifica e exagera sim, porém continua verdadeira, legítima, emocionante --- porque fundada no imaginário, na liberdade criadora do artista, situando-se portanto a anos-luz da realidade comum.
E faz com que aqueles escritores que se acham em atividade em qualquer parte do mundo digam respeito e se reportem a todos nós; e que, conosco se identificando, nos tornem sempre melhores.
A literatura é o domínio da ficção literária, a redescoberta do real --- já transfigurado pela fantasia; é conseguir enxergar o desconhecido com os óculos das palavras subitamente "novas".
Na definição de Luiz H. da Costa, "A Literatura é um condutor de convicções. E a Literatura Infantil não é algo separado, inferior ou menor que ela..."
A Arte não é fotografia do real, pois, ao organizar sua linguagem de forma tão peculiar, onírica e transparente, passa a outra categoria, a das coisas esteticamente perfeitas.
Mesmo quando o escritor se posiciona contra o modismo literário, contra o estilo dominante de sua época, permanece válida a sua rebeldia. Isto porque ele, embora inserido naquele contexto, ao negá-lo e renegá-lo, está evoluindo e fazendo evoluir esses valores para outro contexto (já que, ao recusá-lo, aponta outros). Caso não fosse assim, caso alguém não bradasse "Alto lá!", ainda estaríamos no Trovadorismo ou no Barroco...
A Teoria da Literatura engloba conceitos mais complexos, científicos, objetivos e universais, seguindo linhas críticas predefinidas.
2 - História da Literatura:
Consideramos dois aspectos: os estilos de época (cronologia) e a estilística (autor/época). O registro estilístico significa os diversos estilos existentes em cada época.
O registro histórico trabalha somente (ou mais) com o aspecto cronológico dos fatos literários. Quando Homero escreve a Odisséia, é apenas um registro; não possui ainda uma característica de arte pela arte. Todavia, os séculos passando, vai surgindo e se consolidando uma relação com a Sociedade, resultando daí sua valoração estética.
O "New Criticism" (A Nova Crítica), surgida nos EUA, na década de 40, dominou a cena mundial até 1960. No Brasil, tivemos vários seguidores, como Afrânio Coutinho.
3 – Crítica Literária:
- Literatura como movimento da Sociedade;
- Literatura como resultado de tensões entre ficção e realidade;
- Literatura como expressão ou construção ideológica;
- Literatura como resultado de inflexões de gosto; de valor; de beleza; de criatividade; de imaginação...
4 - Qual a função da literatura?
Para os formalistas russos, "literatura é a violência organizada contra a fala comum".
O conteúdo era a motivação da forma. O Dom Quixote aparecia como simples um pretexto, um artifício para se reunirem diferentes tipos de técnicas narrativas.
Ao lermos uma história sem nos preocuparmos com a sua estrutura, tornamos a leitura mais intensa e finalmente chegamos àquilo que ela nos quer transmitir.
A literatura é, enfim, uma forma especial de linguagem, em contraste com a linguagem comum. No entanto, nem todos os desvios lingüísticos são poéticos.
A estranheza de um texto não garante que ele sempre foi, em toda parte, estranho: era-o apenas em contraposição a um certo pano de fundo lingüístico normativo...
O domínio literário não se desprende dos eventos que, simultaneamente, estão acontecendo. A construção de sentido do texto se produz no momento do choque, do contato do leitor com a mensagem.
5 – Renascimento e Barroco:
No Renascimento, há o resgate dos valores estéticos e idealistas, que durante séculos se foram perdendo.
Já o Barroco não conseguiu reproduzir a simplicidade do início da Era Cristã. Os valores daquela época são reproduzidos em cada obra. Esse quadro se prolonga até o século XVIII, quando percebemos o enfraquecimento da Igreja.
Galileu Galilei e Isaac Newton anunciam ao mundo verdades incontestáveis, colaborando assim para a mudança do pensamento medieval e sua evolução rumo à liberdade intelectual. Afirmando que existiam outras formas de conhecimento além das contidas nos dogmas católicos, eles alargaram as fronteiras do sonho e da ousadia do homem da época.
6 – A Literatura Portuguesa:
Um dos vícios peculiares da tradição literária portuguesa: a construção de personagens sensíveis demais, sintetizados com dados religiosos, como condição do ser a transitar pelo mundo, relevando apenas aquilo que a religião tinha como valor estabelecido.
Até o século XVIII, essa literatura jorrou como uma fonte quase inesgotável de valores morais, sociais etc.
A partir do século XIX, nota-se a ausência de classificação, uma necessidade de mercado, de alguma coisa que se conjugasse com o que os sábios transmitiam na escola pública.
7 – Os Formalistas Russos:
Na Rússia pré-Revolução Soviética, formou-se o Movimento Idealista, com Roman Jakobson à frente, doutrinando sobre a linguagem, como o texto se estrutura etc.
Ao analisarmos a teoria formalista, reparamos que ela procura enxugar, limpar o excesso, o exagero emocional dos textos.
É importante valorizar a crítica formalista, como a organização particular da realidade, onde a forma prepondera sobre a interpretação.
Os formalistas começaram por considerar a obra literária como uma reunião mais ou menos arbitrária de artifícios.
Pensar na literatura como os formalistas o fazem é, na realidade, considerar toda a literatura como poesia. Quando os formalistas trataram da prosa, simplesmente estenderam a ela toda a técnica que haviam utilizado para a poesia.
Formalistas – havia um excesso de todo o resto. Causam um desequilíbrio, levando a muitas lacunas: fato x ficção, verdade x mentira etc., o que pode ser considerado como literatura.
8 – A Literatura e o Cinema:
O cinema foi inventado no final do século XIX. Teve sim apoio científico e financeiro, mas com a finalidade de registrar fenômenos do cotidiano, não como forma de entretenimento. A partir da criação dos efeitos especiais, passou-se a criar narrativas.
Nos EUA, o que há de mais amplo no mundo virtual é o cinema. Lá, logo que alguém escreve algo que interesse à indústria cinematográfica, sondam-no para vender os direitos autorais. O "best-sellerismo" designa a literatura que se destina a todos, à grande massa leitora.
9 – Tzvetan Todorov e os professores:
A condição redutora da literatura não se resume aos professores que preparam as aulas, mas à indústria que reprime ou reduz o conhecimento.
Todorov aconselha os professores a oferecer aos alunos livros que estejam mais próximos de seus interesses e que não se afastem, levando-os a um mundo distante da sua realidade e conhecimento.
O autor se interroga sobre a própria literatura. Ela está ligada à condição humana, influindo no discernimento que se vai construindo do mundo, nos desejos ocultos dos que a amam... Para ele, a escrita imaginativa envolve fato e ficção, com alta dose de ambigüidade.
Considera ele esse enfoque na maneira de falar, e não na realidade daquilo de que se fala, como uma indicação do que se entende por literatura.
A produção, a reelaboração do texto é muito mais importante do que o seu mero nascimento, pois ele vem à luz eivado de inevitável intertextualidade; então, na reescritura pertinaz, incessante, o artista consegue torná-lo realmente seu. Tal esforço configura o tratamento pragmático da linguagem.
10 – Caráter de espontaneidade ou não da Literatura:
A literatura infantil também serve de veículo para impor conceitos morais e, de modo bem sutil, dar destaque a determinados valores em vez de outros; logo, se notarmos isso, devemos desconfiar de sua falsa pureza, denunciando com veemência tal patifaria ideológica, tal comércio vil de idéias. Nada de aceitar calados a falsa reprodução da realidade!
A partir do século XIX, a Literatura tornou-se imponderável, irrefreável, incômoda enfim, denunciando fatos e situações que a Sociedade preferiria abafar: opina soberanamente sobre história, política, religião... Muda governos, desfaz países, constrói nações, salva povos, eleva a nós todos. Liberdade!
Quando escrevemos, refletimos sobre quem vai nos ler, sobre nós mesmos e outras coisas que faz com que a literatura não seja espontânea.
11 - Paisagem contemporânea:
Quando percebemos que a totalidade, o conjunto das coisas remete ao mesmo contexto onde habitam todas as questões inerentes ao ser humano, visualizamos com nitidez os problemas que de forma direta o afetam: questões ambientais, sociais, raciais, ecumênicas enfim...
Trata-se de um mesmo universo de dúvidas, angústias e sonhos se repetindo, desafiadoramente, cristalizado no verso drummondiano: "Trouxeste a chave?" (1)
Geralmente as questões literárias mais veementes, polêmicas, atuais, se encontram na no ambiente cosmopolita das grandes cidades, como o Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo, Porto Alegre...
12 - Os marcadores da Literatura:
O que dirige o nosso olhar e distancia nossas mentes quando lemos um texto, só o mistério explica --- misteriosamente, claro. Portanto, atuemos perante o texto com bastante cuidado, paixão, serenidade e sensibilidade, para descobrirmos sua real vocação: enganar-nos ou encantar-nos.
O fenômeno poético surge como uma forma de tornar mais belo algo que nem pressentíamos, ou que vagamente adivinhávamos. Como disse Luiz Henrique: "O poeta é sempre aquele que está vendo o mundo pela primeira vez."
Esse estranhamento leva a outra situação que não se encontra explícita no texto, mas que se faz presente em nós, leitores.
"Poema para os seios do meu amor" (2)
Dois balões
Aterrissados
Nas minhas mãos
Dois silêncios
Redondos e macios
Dois barcos que me levam
Longe
Onde mora a flor
Nossa abordagem enfoca a densa literiedade do poema, que se expressa na abundância das figuras de linguagem.
Com extrema e feliz delicadeza lírica, o poeta descreve metaforicamente os seios da amada.
A primeira estrofe nos causa estranheza e admiração, devido à construção verbal e teórica inesperada, imprevista, suave.
Já na segunda, a palavra "silêncios", oposta aos adjetivos "redondos" e "macios", define os seios e, mais que isso, transporta essa definição a um plano mágico, irreal, feérico.
E na terceira e última estrofe, os seios-barcos o levam além --- ao sonho, ao delírio, ao absoluto deleite. Note-se que o advérbio "longe" se encontra isolado num verso único sim, mas integrando também um céu pessoal, inefável, de inexcedível prazer.
A repetição de "Dois" gera e mantém uma constância rítmica e estilisticamente orgânica, trançando bem os significados do texto.
Eucanaã construiu seu poema com competente parcimônia, essencializando (sintetizando) os elementos formais, surpreendendo pela objetividade, precisão e concisão da abrangência. Expressando-nos talvez melhor: cada palavra sua explica com exatidão a seqüência do ato sexual: a iniciação amorosa, as carícias preliminares (inserindo-se aí o tema presente, como "o caminho, o meio que leva até a flor, o órgão sexual feminino").
O vocábulo "onde" deveria ser, na verdade, "aonde".
E não se iluda o poeta com as louvações acima, pois seu trabalho também contém imperfeições, e várias. Só que a dinâmica do Curso não nos permite alongar-nos.
13 - A literatura infantil contemporânea:
A literatura infantil hoje está formatada pela linguagem televisiva, cinematográfica etc. Nas primeiras décadas do século XX, Monteiro Lobato brindou as crianças brasileiras com inúmeras obras; por isso, a nossa literatura infantil é, com justiça, dividida em antes e depois dele.
Na década de 60, a escrita se mostra independente, amadurecendo sem-pre. E na de 80, ocorre a explosão de autores e leitores: "Ficts", "O Menino Maluquinho" e outros livros, que aumentou bastante o número de leitores nas escolas.
A necessidade de consumo partiu dessas possibilidades.
Infelizmente, porém, a literatura acaba ocupando uma função didática, conceitual; serve para ensinar alguma coisas, nada mais. A noção estética quase desapareceu.
Os textos não acompanharam a verdadeira literatura, ocorrendo o predomínio das ilustrações sobre eles que, além de mal escritos, às vezes são demasiado curtos.
Em nosso caso, há um fundamento estético e outro moral. Intermediando-os, sobrepõe-se o mercado, cuja ambição é se apropriar de conceitos e obras, atribuindo-lhes determinado valor, objetivando lucros.
Há na atualidade uma escrita bastante melodramática, que produz uma espécie de pacto do leitor com o escritor.
A nossa literatura, entretanto, por se achar sempre em contato com o pensamento contemporâneo, desabrocha em obras originais e polêmicas; e aí reside um dos seus grandes fundamentos: a força com que transforma idéias, formas, fatos e mentes.
Esse empirismo, efetivado na análise objetiva dos fatos do cotidiano, faz que olhemos de novo a atual literatura infantil, mas sem a intenção (ou a ilusão) de ver a mesma concepção ou análise.
14 - Fontes de consulta:
1 - A Literatura no Brasil, de Afrânio Coutinho. 6 vols.
2 - "A Psicanálise dos Contos de Fadas", de Bruno Bettelheim. 440 p., 21ª edição, Paz e Terra, RJ, 2007.
3 – "As Raízes Históricas do Conto Maravilhoso", de Vladimir Propp. Martins Fontes, SP, 1997.
4 – "Introdução à Literatura Fantástica", de Tzvetan Todorov. SP, Perspectiva, 1975.
5 - "Literatura e Sociedade", de Antonio Candido.
6 - "Literatura Infantil Brasileira", de Marisa Lajolo e Regina Zilberman. 190 p., 6ª edição, Ática, SP, 2006.
7 - "O Arco e a Lira", de Octavio Paz.
8 - "O grande massacre dos gatos e outros episódios da história francesa", de Robert Dartson. 2ª ed. SP, Ed. Graal, 1986.
9 - "O que é Literatura Infantil", de Lígia Cadermatori. 90 p. 7ª edição, Brasiliense, SP, 2006.
10 - "O Texto na Sala de Aula --- Leitura e Produção", de João W. Geraldi (org.). 4ª edição, 136 p., Ática, SP, 2006.
11 - "Paisagens imaginárias: intelectuais, arte e meios de comunicação", de Beatriz Sarlo. E-DUSP, SP, 1997.
12 - "Seis propostas para o novo Milênio", de Italo Calvino.15 - Teoria da Literatura, de André Wellek e Austin Warren.
13 - "Teoria da Literatura: uma Introdução", de Terry Eagleton. 400 p., 6ª edição, Martins Fontes, SP, 2006.
___________
(1) Do poema "Procura da Poesia".
(2) Este poema, do professor universitário Eucanaã Ferraz, foi analisado pela turma da Pós, orientada pelo professor Luiz Henrique da Costa, em março de 2008. Os desdobramentos coletivos da análise se inseriram no todo das atividades da semana.Para realizar essa leitura crítica, acessei um "site" e vários "blogs". Os possíveis equívocos de interpretação então se dissiparam ou ganharam consistência de verdades literárias, ao confrontar o poema acima com o que pude recolher e ler da sua obra: trata-se de um escritor justamente consa-grado. Eis-los: www.poesiaseprosas@com.br
antoniocicero.blogspot.com
regisbonvicino.blogspot.com.br
asescolhasafectivas.blogspot.com
alfabeto.blogspot.com
Perfil:
Eucanaã Ferraz nasceu no Rio de Janeiro, em 1961. Publicou, entre outros, os livros de poemas
"Livro primeiro" (Edição do Autor: 1990),
"Martelo" (Sette Letras, 1997),
"Desassombro" (Portugal, Quasi 2001), e
"Rua do Mundo" (Companhia das Letras, 2004).
Organizou "Letra Só", seleção de letras de Caetano Veloso, editado em Portugal (Quasi, 2002) e no Brasil (Cia. das Letras, 2003).
Em parceria com Antonio Cicero, elaborou a "Nova Antologia Poética de Vinicius de moraes"
(Cia. das Letras, 2003).
Organizou ainda "Poesia completa e prosa de Vinicius de Moraes" (Nova Aguilar, 2004) e a antologia "Veneno antimonotonia" (Objetiva, 2005), onde agrupou poemas e letras de grandes de importantes nomes da poesia e da música brasileiras.
É professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde obteve o título de mestre com dissertação sobre Carlos Drummond de Andrade, e o de doutor com tese sobre João Cabral de Melo Neto.
Contatos: http://www.eucanaaferraz.com.br.
Copiei o perfil acima de "asescolhasafectivas.blogspot.com", em 04/05/2008.
Já o poema abaixo --- o único em que, dessa visão panorâmica mas superficial de sua obra, notei uma chama épica --- retirei-o de www.poesiaseprosas@com.br:
"Não eram flores"
Não eram flores,
tampouco a aurora.
As palavras chegaram
sujas de sangue.
Delas, mal se podia
ver a face
por sob o silêncio
ressequido.
De homens
imolados a nada,
vieram frases
sem sentido,
flores da sevícia embrulhadas
no papel ruim dos jornais.
Ainda palavras.
Mas nunca tão duras.
Dei a elas esta folha
- a mais alva que pude.
Fim
__________ (1) Modificado sete vezes desde então, consumindo cerca de cinco horas, entre computador, ônibus, mesa de trabalho, leituras e pesquisas...
"Só quem escreve sabe as armadilhas
que a escritura oculta
sob as mais doces palavras."
(Luiz Henrique da Costa)
Índice:
1 - Questionamentos básicos
2 - História da Literatura
3 - Crítica Literária
4 – Qual a função da literatura?
5 - Renascimento e Barroco
6 – A Literatura Portuguesa
7 – Os Formalistas Russos
8 – A Literatura e o Cinema
9 – Tzvetan Todorov e os professores
10 – Caráter de espontaneidade ou não da Literatura
11 – Paisagem contemporânea
12 - Os marcadores da Literatura
13 - A literatura infantil contemporânea
14 - Fontes de consulta
1 - Questionamentos básicos:
O que é literatura? Como se estrutura ideologicamente? Quais as tensões que a balizam? O que suscita? O que a motiva?
As perguntas acima atravessam todas as proposições teóricas, sem nenhuma resposta definitiva. Isto porque a literatura não tem, a rigor, nenhuma finalidade prática. Aliás, a sua grande importância é não ter importância nenhuma.
Os conceitos de literatura variam de acordo com a História, com os fatos dominantes de cada época. Podemos analisar esses conceitos de acordo com os valores que se foram construindo ao longo dos tempos.
Ela não é cópia da realidade, nem modificadora dela... Ela falsifica e exagera sim, porém continua verdadeira, legítima, emocionante --- porque fundada no imaginário, na liberdade criadora do artista, situando-se portanto a anos-luz da realidade comum.
E faz com que aqueles escritores que se acham em atividade em qualquer parte do mundo digam respeito e se reportem a todos nós; e que, conosco se identificando, nos tornem sempre melhores.
A literatura é o domínio da ficção literária, a redescoberta do real --- já transfigurado pela fantasia; é conseguir enxergar o desconhecido com os óculos das palavras subitamente "novas".
Na definição de Luiz H. da Costa, "A Literatura é um condutor de convicções. E a Literatura Infantil não é algo separado, inferior ou menor que ela..."
A Arte não é fotografia do real, pois, ao organizar sua linguagem de forma tão peculiar, onírica e transparente, passa a outra categoria, a das coisas esteticamente perfeitas.
Mesmo quando o escritor se posiciona contra o modismo literário, contra o estilo dominante de sua época, permanece válida a sua rebeldia. Isto porque ele, embora inserido naquele contexto, ao negá-lo e renegá-lo, está evoluindo e fazendo evoluir esses valores para outro contexto (já que, ao recusá-lo, aponta outros). Caso não fosse assim, caso alguém não bradasse "Alto lá!", ainda estaríamos no Trovadorismo ou no Barroco...
A Teoria da Literatura engloba conceitos mais complexos, científicos, objetivos e universais, seguindo linhas críticas predefinidas.
2 - História da Literatura:
Consideramos dois aspectos: os estilos de época (cronologia) e a estilística (autor/época). O registro estilístico significa os diversos estilos existentes em cada época.
O registro histórico trabalha somente (ou mais) com o aspecto cronológico dos fatos literários. Quando Homero escreve a Odisséia, é apenas um registro; não possui ainda uma característica de arte pela arte. Todavia, os séculos passando, vai surgindo e se consolidando uma relação com a Sociedade, resultando daí sua valoração estética.
O "New Criticism" (A Nova Crítica), surgida nos EUA, na década de 40, dominou a cena mundial até 1960. No Brasil, tivemos vários seguidores, como Afrânio Coutinho.
3 – Crítica Literária:
- Literatura como movimento da Sociedade;
- Literatura como resultado de tensões entre ficção e realidade;
- Literatura como expressão ou construção ideológica;
- Literatura como resultado de inflexões de gosto; de valor; de beleza; de criatividade; de imaginação...
4 - Qual a função da literatura?
Para os formalistas russos, "literatura é a violência organizada contra a fala comum".
O conteúdo era a motivação da forma. O Dom Quixote aparecia como simples um pretexto, um artifício para se reunirem diferentes tipos de técnicas narrativas.
Ao lermos uma história sem nos preocuparmos com a sua estrutura, tornamos a leitura mais intensa e finalmente chegamos àquilo que ela nos quer transmitir.
A literatura é, enfim, uma forma especial de linguagem, em contraste com a linguagem comum. No entanto, nem todos os desvios lingüísticos são poéticos.
A estranheza de um texto não garante que ele sempre foi, em toda parte, estranho: era-o apenas em contraposição a um certo pano de fundo lingüístico normativo...
O domínio literário não se desprende dos eventos que, simultaneamente, estão acontecendo. A construção de sentido do texto se produz no momento do choque, do contato do leitor com a mensagem.
5 – Renascimento e Barroco:
No Renascimento, há o resgate dos valores estéticos e idealistas, que durante séculos se foram perdendo.
Já o Barroco não conseguiu reproduzir a simplicidade do início da Era Cristã. Os valores daquela época são reproduzidos em cada obra. Esse quadro se prolonga até o século XVIII, quando percebemos o enfraquecimento da Igreja.
Galileu Galilei e Isaac Newton anunciam ao mundo verdades incontestáveis, colaborando assim para a mudança do pensamento medieval e sua evolução rumo à liberdade intelectual. Afirmando que existiam outras formas de conhecimento além das contidas nos dogmas católicos, eles alargaram as fronteiras do sonho e da ousadia do homem da época.
6 – A Literatura Portuguesa:
Um dos vícios peculiares da tradição literária portuguesa: a construção de personagens sensíveis demais, sintetizados com dados religiosos, como condição do ser a transitar pelo mundo, relevando apenas aquilo que a religião tinha como valor estabelecido.
Até o século XVIII, essa literatura jorrou como uma fonte quase inesgotável de valores morais, sociais etc.
A partir do século XIX, nota-se a ausência de classificação, uma necessidade de mercado, de alguma coisa que se conjugasse com o que os sábios transmitiam na escola pública.
7 – Os Formalistas Russos:
Na Rússia pré-Revolução Soviética, formou-se o Movimento Idealista, com Roman Jakobson à frente, doutrinando sobre a linguagem, como o texto se estrutura etc.
Ao analisarmos a teoria formalista, reparamos que ela procura enxugar, limpar o excesso, o exagero emocional dos textos.
É importante valorizar a crítica formalista, como a organização particular da realidade, onde a forma prepondera sobre a interpretação.
Os formalistas começaram por considerar a obra literária como uma reunião mais ou menos arbitrária de artifícios.
Pensar na literatura como os formalistas o fazem é, na realidade, considerar toda a literatura como poesia. Quando os formalistas trataram da prosa, simplesmente estenderam a ela toda a técnica que haviam utilizado para a poesia.
Formalistas – havia um excesso de todo o resto. Causam um desequilíbrio, levando a muitas lacunas: fato x ficção, verdade x mentira etc., o que pode ser considerado como literatura.
8 – A Literatura e o Cinema:
O cinema foi inventado no final do século XIX. Teve sim apoio científico e financeiro, mas com a finalidade de registrar fenômenos do cotidiano, não como forma de entretenimento. A partir da criação dos efeitos especiais, passou-se a criar narrativas.
Nos EUA, o que há de mais amplo no mundo virtual é o cinema. Lá, logo que alguém escreve algo que interesse à indústria cinematográfica, sondam-no para vender os direitos autorais. O "best-sellerismo" designa a literatura que se destina a todos, à grande massa leitora.
9 – Tzvetan Todorov e os professores:
A condição redutora da literatura não se resume aos professores que preparam as aulas, mas à indústria que reprime ou reduz o conhecimento.
Todorov aconselha os professores a oferecer aos alunos livros que estejam mais próximos de seus interesses e que não se afastem, levando-os a um mundo distante da sua realidade e conhecimento.
O autor se interroga sobre a própria literatura. Ela está ligada à condição humana, influindo no discernimento que se vai construindo do mundo, nos desejos ocultos dos que a amam... Para ele, a escrita imaginativa envolve fato e ficção, com alta dose de ambigüidade.
Considera ele esse enfoque na maneira de falar, e não na realidade daquilo de que se fala, como uma indicação do que se entende por literatura.
A produção, a reelaboração do texto é muito mais importante do que o seu mero nascimento, pois ele vem à luz eivado de inevitável intertextualidade; então, na reescritura pertinaz, incessante, o artista consegue torná-lo realmente seu. Tal esforço configura o tratamento pragmático da linguagem.
10 – Caráter de espontaneidade ou não da Literatura:
A literatura infantil também serve de veículo para impor conceitos morais e, de modo bem sutil, dar destaque a determinados valores em vez de outros; logo, se notarmos isso, devemos desconfiar de sua falsa pureza, denunciando com veemência tal patifaria ideológica, tal comércio vil de idéias. Nada de aceitar calados a falsa reprodução da realidade!
A partir do século XIX, a Literatura tornou-se imponderável, irrefreável, incômoda enfim, denunciando fatos e situações que a Sociedade preferiria abafar: opina soberanamente sobre história, política, religião... Muda governos, desfaz países, constrói nações, salva povos, eleva a nós todos. Liberdade!
Quando escrevemos, refletimos sobre quem vai nos ler, sobre nós mesmos e outras coisas que faz com que a literatura não seja espontânea.
11 - Paisagem contemporânea:
Quando percebemos que a totalidade, o conjunto das coisas remete ao mesmo contexto onde habitam todas as questões inerentes ao ser humano, visualizamos com nitidez os problemas que de forma direta o afetam: questões ambientais, sociais, raciais, ecumênicas enfim...
Trata-se de um mesmo universo de dúvidas, angústias e sonhos se repetindo, desafiadoramente, cristalizado no verso drummondiano: "Trouxeste a chave?" (1)
Geralmente as questões literárias mais veementes, polêmicas, atuais, se encontram na no ambiente cosmopolita das grandes cidades, como o Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo, Porto Alegre...
12 - Os marcadores da Literatura:
O que dirige o nosso olhar e distancia nossas mentes quando lemos um texto, só o mistério explica --- misteriosamente, claro. Portanto, atuemos perante o texto com bastante cuidado, paixão, serenidade e sensibilidade, para descobrirmos sua real vocação: enganar-nos ou encantar-nos.
O fenômeno poético surge como uma forma de tornar mais belo algo que nem pressentíamos, ou que vagamente adivinhávamos. Como disse Luiz Henrique: "O poeta é sempre aquele que está vendo o mundo pela primeira vez."
Esse estranhamento leva a outra situação que não se encontra explícita no texto, mas que se faz presente em nós, leitores.
***
Analisamos um trabalho de Eucanaã Ferraz:"Poema para os seios do meu amor" (2)
Dois balões
Aterrissados
Nas minhas mãos
Dois silêncios
Redondos e macios
Dois barcos que me levam
Longe
Onde mora a flor
Nossa abordagem enfoca a densa literiedade do poema, que se expressa na abundância das figuras de linguagem.
Com extrema e feliz delicadeza lírica, o poeta descreve metaforicamente os seios da amada.
A primeira estrofe nos causa estranheza e admiração, devido à construção verbal e teórica inesperada, imprevista, suave.
Já na segunda, a palavra "silêncios", oposta aos adjetivos "redondos" e "macios", define os seios e, mais que isso, transporta essa definição a um plano mágico, irreal, feérico.
E na terceira e última estrofe, os seios-barcos o levam além --- ao sonho, ao delírio, ao absoluto deleite. Note-se que o advérbio "longe" se encontra isolado num verso único sim, mas integrando também um céu pessoal, inefável, de inexcedível prazer.
A repetição de "Dois" gera e mantém uma constância rítmica e estilisticamente orgânica, trançando bem os significados do texto.
Eucanaã construiu seu poema com competente parcimônia, essencializando (sintetizando) os elementos formais, surpreendendo pela objetividade, precisão e concisão da abrangência. Expressando-nos talvez melhor: cada palavra sua explica com exatidão a seqüência do ato sexual: a iniciação amorosa, as carícias preliminares (inserindo-se aí o tema presente, como "o caminho, o meio que leva até a flor, o órgão sexual feminino").
O vocábulo "onde" deveria ser, na verdade, "aonde".
E não se iluda o poeta com as louvações acima, pois seu trabalho também contém imperfeições, e várias. Só que a dinâmica do Curso não nos permite alongar-nos.
13 - A literatura infantil contemporânea:
A literatura infantil hoje está formatada pela linguagem televisiva, cinematográfica etc. Nas primeiras décadas do século XX, Monteiro Lobato brindou as crianças brasileiras com inúmeras obras; por isso, a nossa literatura infantil é, com justiça, dividida em antes e depois dele.
Na década de 60, a escrita se mostra independente, amadurecendo sem-pre. E na de 80, ocorre a explosão de autores e leitores: "Ficts", "O Menino Maluquinho" e outros livros, que aumentou bastante o número de leitores nas escolas.
A necessidade de consumo partiu dessas possibilidades.
Infelizmente, porém, a literatura acaba ocupando uma função didática, conceitual; serve para ensinar alguma coisas, nada mais. A noção estética quase desapareceu.
Os textos não acompanharam a verdadeira literatura, ocorrendo o predomínio das ilustrações sobre eles que, além de mal escritos, às vezes são demasiado curtos.
Em nosso caso, há um fundamento estético e outro moral. Intermediando-os, sobrepõe-se o mercado, cuja ambição é se apropriar de conceitos e obras, atribuindo-lhes determinado valor, objetivando lucros.
Há na atualidade uma escrita bastante melodramática, que produz uma espécie de pacto do leitor com o escritor.
A nossa literatura, entretanto, por se achar sempre em contato com o pensamento contemporâneo, desabrocha em obras originais e polêmicas; e aí reside um dos seus grandes fundamentos: a força com que transforma idéias, formas, fatos e mentes.
Esse empirismo, efetivado na análise objetiva dos fatos do cotidiano, faz que olhemos de novo a atual literatura infantil, mas sem a intenção (ou a ilusão) de ver a mesma concepção ou análise.
14 - Fontes de consulta:
1 - A Literatura no Brasil, de Afrânio Coutinho. 6 vols.
2 - "A Psicanálise dos Contos de Fadas", de Bruno Bettelheim. 440 p., 21ª edição, Paz e Terra, RJ, 2007.
3 – "As Raízes Históricas do Conto Maravilhoso", de Vladimir Propp. Martins Fontes, SP, 1997.
4 – "Introdução à Literatura Fantástica", de Tzvetan Todorov. SP, Perspectiva, 1975.
5 - "Literatura e Sociedade", de Antonio Candido.
6 - "Literatura Infantil Brasileira", de Marisa Lajolo e Regina Zilberman. 190 p., 6ª edição, Ática, SP, 2006.
7 - "O Arco e a Lira", de Octavio Paz.
8 - "O grande massacre dos gatos e outros episódios da história francesa", de Robert Dartson. 2ª ed. SP, Ed. Graal, 1986.
9 - "O que é Literatura Infantil", de Lígia Cadermatori. 90 p. 7ª edição, Brasiliense, SP, 2006.
10 - "O Texto na Sala de Aula --- Leitura e Produção", de João W. Geraldi (org.). 4ª edição, 136 p., Ática, SP, 2006.
11 - "Paisagens imaginárias: intelectuais, arte e meios de comunicação", de Beatriz Sarlo. E-DUSP, SP, 1997.
12 - "Seis propostas para o novo Milênio", de Italo Calvino.15 - Teoria da Literatura, de André Wellek e Austin Warren.
13 - "Teoria da Literatura: uma Introdução", de Terry Eagleton. 400 p., 6ª edição, Martins Fontes, SP, 2006.
___________
(1) Do poema "Procura da Poesia".
(2) Este poema, do professor universitário Eucanaã Ferraz, foi analisado pela turma da Pós, orientada pelo professor Luiz Henrique da Costa, em março de 2008. Os desdobramentos coletivos da análise se inseriram no todo das atividades da semana.Para realizar essa leitura crítica, acessei um "site" e vários "blogs". Os possíveis equívocos de interpretação então se dissiparam ou ganharam consistência de verdades literárias, ao confrontar o poema acima com o que pude recolher e ler da sua obra: trata-se de um escritor justamente consa-grado. Eis-los: www.poesiaseprosas@com.br
antoniocicero.blogspot.com
regisbonvicino.blogspot.com.br
asescolhasafectivas.blogspot.com
alfabeto.blogspot.com
Perfil:
Eucanaã Ferraz nasceu no Rio de Janeiro, em 1961. Publicou, entre outros, os livros de poemas
"Livro primeiro" (Edição do Autor: 1990),
"Martelo" (Sette Letras, 1997),
"Desassombro" (Portugal, Quasi 2001), e
"Rua do Mundo" (Companhia das Letras, 2004).
Organizou "Letra Só", seleção de letras de Caetano Veloso, editado em Portugal (Quasi, 2002) e no Brasil (Cia. das Letras, 2003).
Em parceria com Antonio Cicero, elaborou a "Nova Antologia Poética de Vinicius de moraes"
(Cia. das Letras, 2003).
Organizou ainda "Poesia completa e prosa de Vinicius de Moraes" (Nova Aguilar, 2004) e a antologia "Veneno antimonotonia" (Objetiva, 2005), onde agrupou poemas e letras de grandes de importantes nomes da poesia e da música brasileiras.
É professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde obteve o título de mestre com dissertação sobre Carlos Drummond de Andrade, e o de doutor com tese sobre João Cabral de Melo Neto.
Contatos: http://www.eucanaaferraz.com.br.
Copiei o perfil acima de "asescolhasafectivas.blogspot.com", em 04/05/2008.
Já o poema abaixo --- o único em que, dessa visão panorâmica mas superficial de sua obra, notei uma chama épica --- retirei-o de www.poesiaseprosas@com.br:
"Não eram flores"
Não eram flores,
tampouco a aurora.
As palavras chegaram
sujas de sangue.
Delas, mal se podia
ver a face
por sob o silêncio
ressequido.
De homens
imolados a nada,
vieram frases
sem sentido,
flores da sevícia embrulhadas
no papel ruim dos jornais.
Ainda palavras.
Mas nunca tão duras.
Dei a elas esta folha
- a mais alva que pude.
Fim
__________ (1) Modificado sete vezes desde então, consumindo cerca de cinco horas, entre computador, ônibus, mesa de trabalho, leituras e pesquisas...
Existe Ex-Texto?
Antitexto, contexto, destexto, intertexto, neotexto, pan-texto, pós-texto, pré-texto, pró-texto, quase-texto, subtexto, supertexto...
E ex-texto, existe?
E ex-texto, existe?
Funções da Linguagem
A comunicação verbal se processa da seguinte forma:
1 – Referencial ou denotativa – Usada para expressar a realidade, o fato externo, a informação. Ela põe em evidência o referente, ou seja, o assunto ao qual a mensagem se refere. Ex.: o noticiário do jornal ou da TV.
2 – Conativa ou apelativa – Empregada para dar conselhos, avisos, ordens ou fazer pedidos: Cuidado!, É proibido fumar!, Vem cá, menino!, Ajude-me!
3 – Emotiva ou expressiva – Serve para expressar atitudes ou emoções. Reflete o estado de ânimo do emissor, seus sentimentos e emoções.
4 – Fática – Serve para manter o diálogo, mesmo sem transmitir mensagens precisas. Não comunica nada, mas mantém aberto o canal de comunicação entre o emissor e o receptor:
E aí, tudo bem?
Alô, alô, está me ouvindo?
5 – Poética – Utilizamo-la para produzir efeitos artísticos. A mensagem, elaborada, trabalhada artisticamente, visa a encantar quem a ouve ou lê. Ex.: uma peça teatral, um poema...
6 – Metalingüística – Valemo-nos desta linguagem para explicar o significado de outra linguagem. Esta função possibilita a um código se referir a ele mesmo, explicando-se (é a palavra comentando a palavra). Exemplos:
a) “Frase é qualquer enunciado lingüístico com sentido completo.” (Note que, para darmos a definição de frase, empregamos uma frase. O código utilizado foi a língua portuguesa.).
b) “O português é uma das línguas mais difíceis do mundo.”(Repare que, para falar das dificuldades do idioma, usamos o próprio idioma).
_______________Comentários:
1 - Conativa (item 3): vem de ‘conação’, que quer dizer intenção ou atitude dirigida, objetivando direcionar ou disciplinar comportamentos. A linguagem conativa, muito usada em cartazes e comerciais publicitários, procura influenciar as pessoas, levando-as a tomar atitudes como:
a) fazer algo:
“Compre hoje e pague a primeira prestação só daqui a três meses!”
“Doe sangue. Seja bom. Salve vidas.”
b) não fazer algo:
“Não suje a cidade. Embale seu lixo.”
“Não anule o seu voto. Ele pode mudar o Brasil!"
2 – ‘Fática’ (item 4) deriva do verbo latino “fari” (falar).
3 – ‘Metalingüística' quer dizer ‘além da linguagem’.
4 – ‘Enunciado’ significa expressão, declaração, exposição.
@@@
1 – Referencial ou denotativa – Usada para expressar a realidade, o fato externo, a informação. Ela põe em evidência o referente, ou seja, o assunto ao qual a mensagem se refere. Ex.: o noticiário do jornal ou da TV.
2 – Conativa ou apelativa – Empregada para dar conselhos, avisos, ordens ou fazer pedidos: Cuidado!, É proibido fumar!, Vem cá, menino!, Ajude-me!
3 – Emotiva ou expressiva – Serve para expressar atitudes ou emoções. Reflete o estado de ânimo do emissor, seus sentimentos e emoções.
4 – Fática – Serve para manter o diálogo, mesmo sem transmitir mensagens precisas. Não comunica nada, mas mantém aberto o canal de comunicação entre o emissor e o receptor:
E aí, tudo bem?
Alô, alô, está me ouvindo?
5 – Poética – Utilizamo-la para produzir efeitos artísticos. A mensagem, elaborada, trabalhada artisticamente, visa a encantar quem a ouve ou lê. Ex.: uma peça teatral, um poema...
6 – Metalingüística – Valemo-nos desta linguagem para explicar o significado de outra linguagem. Esta função possibilita a um código se referir a ele mesmo, explicando-se (é a palavra comentando a palavra). Exemplos:
a) “Frase é qualquer enunciado lingüístico com sentido completo.” (Note que, para darmos a definição de frase, empregamos uma frase. O código utilizado foi a língua portuguesa.).
b) “O português é uma das línguas mais difíceis do mundo.”(Repare que, para falar das dificuldades do idioma, usamos o próprio idioma).
_______________Comentários:
1 - Conativa (item 3): vem de ‘conação’, que quer dizer intenção ou atitude dirigida, objetivando direcionar ou disciplinar comportamentos. A linguagem conativa, muito usada em cartazes e comerciais publicitários, procura influenciar as pessoas, levando-as a tomar atitudes como:
a) fazer algo:
“Compre hoje e pague a primeira prestação só daqui a três meses!”
“Doe sangue. Seja bom. Salve vidas.”
b) não fazer algo:
“Não suje a cidade. Embale seu lixo.”
“Não anule o seu voto. Ele pode mudar o Brasil!"
2 – ‘Fática’ (item 4) deriva do verbo latino “fari” (falar).
3 – ‘Metalingüística' quer dizer ‘além da linguagem’.
4 – ‘Enunciado’ significa expressão, declaração, exposição.
@@@
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